Objetivos do ator
Em teatro existe um assunto que para mim
é fundamental ser discutido desde as primeiras instruções que damos aos
iniciantes, um assunto de certa forma até polemico para algumas pessoas e mal
compreendido por outras, principalmente o aluno iniciante. Eu particularmente
trato com muita firmeza este assunto não permitindo que o aluno misture a
verdadeira missão do ator que é: fazer com que a vida e as emoções da
personagem apareçam para o público, e assim não se sobressaia à natural
necessidade de aparecer que têm os alunos iniciantes (e também alguns veteranos
que não tiverem uma boa formação). Resumindo, devemos combater o “estrelismo”.
O ator/atriz só brilha de verdade quando faz, com competência, com que a
personagem ganhe destaque. Por fim, convêm lembrar que “quem faz a fama do bom
ator/atriz é a plateia, Ela é quem de verdade escolhe, por mérito, aquele que
vai brilhar”. Eu sempre digo em minhas primeiras aulas: - Aqui eu não tenho
espaço para estrela e sim para ator e atriz, a “boa fama” nada mais é do que o
reconhecimento do bom trabalho.
Para amparar minha tese oferecerei em
seguida um texto extraído do livro “Ator e método” de autoria de Eugenio Kusnet1,
mais especificamente o capitulo “Objetivos do Ator” onde o autor expõe
sua opinião sobre esta questão de suma importância para a boa formação do
ator/atriz.
O objetivo do teatro é a revelação da vida do espírito humano, e o objetivo do ator é convencer o espectador da realidade da vida.O fator mais importante na nossa arte é o fator: “AÇÃO”.É interessante notar que a palavra AÇÃO e o verbo “AGIR” fazem parte da terminologia teatral desde os tempos mais remotos. A palavra “DRAMA” em grego significa ação. A palavra “Ópera” usada em todas as línguas com o significado de “DRAMA MÚSICADO” vem do verbo operar, ou seja, agir. A palavra “ATOR” que nos dicionários consta como significado simplesmente “agente do ato”, “o que age”, é usado em quase todas as línguas como sendo “homem que representa teatro, cinema e etc.”. Enquanto aos outros artistas se dá uma definição mais completa (Escultor: o que esculpe; Pintor: o que pinta; Violonista: o que toca violino, etc.) ao artista de teatro ninguém chama de “teatralista” ou coisa que o valha, mas sim de ator; a uma parte da peça teatral não chamam de “capítulo” e sim ato.Em cena, nós, atores, agimos em nome de outra pessoa, “agimos como se fossemos outra pessoa”. Isso não quer dizer que a pessoa do ator deva desaparecer deixando o seu lugar ao personagem. Nada disso. Isso significa apenas que “o ator aceita a situação e todos os problemas como se fossem dele próprio e então para solucioná-los, age como tal”. É evidente que o problema do ator é executar com brilho (como compete ao bom ator que é) o seu trabalho, transmitir corretamente a ideia do autor, manter permanentemente o interesse e a atenção do espectador, etc. tudo isso permanece nele, mas “em estado subconsciente”, porque, durante a ação devem prevalecer esmagadoramente os problemas do personagem.Quando o ator não consegue agir no sentido dos objetivos do personagem, ficam apenas os objetivos do ator: brilhar, ser admirado, ser “o tal”, etc. Mas, durante o espetáculo, ao ator em si não pode interessar o espectador. Ele vem ao teatro para ver a vida do personagem na interpretação do ator. É fácil confundir suas próprias emoções com as do personagem. O sentimentalismo é próprio do ator. É preciso que haja muita vigilância para que o ator não seja sua vítima. É tão tentador fazer uma cena que provoque lágrimas na plateia! Ao fazer essa cena o ator admira a si próprio, e fica comovido com sua interpretação, a ponto de chorar lágrimas de verdade. Mas o que as lágrimas têm a ver com os problemas do personagem? NADA! O ator sai completamente da ação do personagem, mesmo sem percebê-lo. Mas o espectador percebe! Ele percebe que naquele momento presencia um melodrama barato e vem de um profundo drama humano em que as lágrimas talvez nem devessem ter lugar.Assim chegamos à conclusão de que os problemas e os objetivos do ator não podem interessar ao espectador, porque eles não têm nada a ver com as circunstâncias que se passa a ação da peça. Certo. Mas não se deve entender isso ao pé da letra: “o ator nunca deve pôr seus problemas pessoais dentro da ação cênica”.De maneira geral, o teatro atual escolheu a “coexistência em cena do ator/cidadão com o personagem”. O que varia é a “dosagem” dessa coexistência: em muitos casos de ostensivamente física, exterior, e em muitos outros, são quase puramente emocional, espiritual.
Du
Lourenso
1Eugênio
Kusnet foi um ator, diretor e professor de teatro russo radicado no Brasil. Nasceu
em Kherson, Ucrânia em 29/12/1898 e faleceu
em 1975 na cidade de São Paulo-Brasil. Trabalhou
durante 07 anos com teatro nos países bálticos (Letônia, Lituânia e Estônia), sofrendo
forte influência da escola de Stanislavski. Chegou no
Brasil em1926 e só na década de 1930 começou
a se interessar pelo teatro brasileiro, mas só fez
sua estreia em 1951, atuando e
trabalhando nos bastidores da peça Paiol Velho, de Abílio Pereira de Almeida.
A partir daí
participou de todo o processo de evolução do teatro brasileiro, e se tornou o mais
destacado ator de formação Stanislavskiana e professor de uma grande geração de
atores que se formou nas décadas de 60 e de70.
Teve
participação ativa também no Teatro Oficina e
no Teatro de Arena, e escreveu dois livros sobre a iniciação na arte
dramática e ao método da ação inconsciente. Nos últimos anos de sua vida
dedicou-se a lecionar teatro na Escola de Arte Dramática da USP e na Fundação das Artes de São Caetano do Sul, além de ser
preparador de elenco de grandes espetáculos como Jesus Cristo Superstar.
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