segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Teatro de Bonecos.


Quero aqui disponibilizar um texto de ótima qualidade produzido por Ana Maria Amaral o qual aborda com grande qualidade questões sobre o teatro de animação.
Sou o atual diretor da Cia. Teatro Ludus que em nossos melhores momentos sempre presou pelo teatro de animação e atualmente vem se dedicando ao teatro de bonecos tanto em estudo quanto 
na escolha do espetáculo que colocou em cartaz. Na formação pessoal do ator é fundamental que ele conheça, ao menos, o mínimo sobre teatro de animação para que se torne um artista com bom nível cultural, lembrando que o universo do teatro não tem espaço para artistas aculturados. 
Espero que este texto alimente a mente e os corações de todos. 
Boa leitura.
Du Lourenso.

Do Teatro de Bonecos ao Teatro de Animação

Tradição, Transformações e Contemporaneidade por Ana Maria Amaral
ECA – USP

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Do ritual ao teatro:
Para pensar o contemporâneo é preciso ter bem presente o que nos antecedeu, nem que seja através de uma breve trajetória. História é mutação. Mutação no sentido de soma, continuidade, não ruptura. Idéias e tendências antigas e vigentes, não são suplantadas de imediato, mas convivem e se mesclam aos poucos às idéias novas, provocando alterações, imperceptíveis. Não há entre o antigo e o contemporâneo uma linha divisória, explícita.
Percebemos, através dos mitos primitivos que, no início, o homem era mais ligado ao inconsciente, expressava-se através de símbolos, fora do tempo e do espaço real, era o não-racional; já o homem civilizado se caracteriza por uma mente mais ordenada, racional.
Nos primórdios, algo semelhante ao que depois se configura como teatro, manifestava-se nos rituais. Rituais são cerimônias que acontecem num determinado tempo e determinado local, durante as quais entidades sagradas e os antepassados de uma comunidade são invocados e reverenciados para trazer bons fluídos e manter viva a tradição. Os deuses e os ancestrais são representados através de imagens, ícones ou bonecos, objetos e máscaras. Como parte do cerimonial; recitativos apresentam os mitos. Os mitos expressam o gênesis do mundo ou de um determinado grupo. Os participantes se mascaram, deixando de ser pessoas comuns para se transformarem em espíritos, em animais sagrados, em seres outros que não eles mesmos do dia à dia. Sobre os rituais mais antigos de civilizações já extintas, sabe-se que aos poucos essas cerimônias foram se dessacralizando, dando origem à grandes festivais de dança.

Do sagrado e do humano:
Na Idade Média a Igreja celebrava ofícios religiosos com imagens de Cristo, da Virgem Maria, dos Santos e com elas cenas bíblicas eram apresentadas em quadros vivos. As cerimônias religiosas foram incentivos para outro tipo de celebrações do povo, mais descontraídas. O sacro e o profano se misturavam. Apesar da proibição da Igreja, trupes de artistas ambulantes percorriam os vilarejos com bailarinos, mímicos, acrobatas, domadores de animais e bonequeiros.
Depois dos séculos de obscurantismo que durou a Idade Média, o período seguinte se caracteriza pela objetividade, pela lógica. Não havia mais o fanatismo, ou a perseguição religiosa. Preponderava a ciência. No classicismo só importava o que fosse mensurável. Para a ciência só importava o mais seguro. Arte Renascentista é um paradigma da perfeição, a pintura era uma atividade quase científica. Os reflexos dessa mentalidade se fizeram sentir no teatro. Da Renascença até final século XIX, o teatro estava ligado ao texto, teatro era tributário da literatura.
O período Romântico, que se seguiu, se caracteriza por suas reações às idéias científicas, os sentidos são colocados acima da razão e a imaginação colocada acima da realidade. Em direção contraria surge depois o Naturalismo e a ciência retornam sob ponto de vista da natureza e da biologia, de certa forma, os pensamentos voltam a se vincular à realidade científica, e os reflexos disso se fazem novamente sentir na literatura e conseqüentemente no teatro, provocando um excesso de Realismo na cena. A contra-reação surge com o Simbolismo, que coloca a imaginação acima da lógica. No simbolismo as idéias são insinuadas, sem clareza. O Simbolismo se expande e à ele seguem-se outros movimentos como: Futurismo, Dadaísmo, Construtivismo, Abstracionismo, o Surrealismo. Todos esses ismos sob cujos embates vivemos até hoje.

Uma Nova teatralidade:
Do final século XIX ao início Sec. XX surgem grandes mudanças.
No período que vai do final do século XIX ao início do séc. XX, surgiram alguns fatores que reforçaram ainda mais as idéias simbolistas e surrealistas. Foram dois os fatores fundamentais: a invenção do cinematógrafo (que deu início ao cinema) e as teorias de Sigmund Freud. A importância dada ao nosso inconsciente através da interpretação dos sonhos; e o fascínio de ver imagens em movimento colocaram em destaque a preponderância da imagem, mas com uma diferença: nas teorias de Freud, imagens de sonhos são referências do individuo, já o cinema atua no coletivo, exercendo influência nos processos associativos da mente. De qualquer forma, ambos, seja no individual ou no coletivo, reforçaram a importância da imagem, dos símbolos, do inconsciente.

Do humano à essência da matéria:
No Século XX temos o início de uma nova teatralidade. O teatro absorve outras formas de artes, não mais, ou não mais apenas, a literatura. Sente-se presença das artes plásticas na cena, importância dada à expressão corporal, o teatro sofre influencia da dança, assim como a dança absorve o teatro. Mais do que com palavras, o ator se expressa com seu corpo palavras. Se durante muito tempo o texto determinava a cena, portanto a dramaturgia antecedia a encenação, hoje a forma antecede a dramaturgia. E em geral as formas são fragmentadas, causando a impressão de uma des-estruturação, ou um expressar-se mais simbólico do que lógico ou racional. O diretor/encenador ganha prioridades sobre o dramaturgo. Os atores cada vez mais se profissionalizam. Atores-autores tomam a cena, o corpo é prioridade. As artes visuais inspiram e determinam novos caminhos para as artes cênicas. Diante da fotografia, do cinema, da tv, do vídeo, o teatro precisa se reformular, buscar novos espaços.
Teatro é imagem. A origem da palavra teatrum, em grego, é local onde se vê, é onde as imagens se apresentam em movimento, operando no indivíduo e no coletivo.

Sobre a relação palco/platéia:
No teatro, diferentemente do cinema ou da TV, o que mais importa é essa relação peculiar que o caracteriza, essa relação tão próxima entre o palco e a platéia. Assim como o teatro influencia e reforça tendências do momento e da sociedade, ele é também reflexo do seu tempo. Importante são os vínculos que se criam entre ambos, seja no plano do real ou do inconsciente, pois assim como o teatro provoca mudanças no seu público, o teatro sofre as influências do pensamento vigente.
Portanto ao falar em teatro e em contemporaneidade, a primeira pergunta que se coloca é: como é o público de hoje? Óbvio, existem diferentes realidades e diferentes capacidades de recepção, mas não esquecer também que dramaturgos, diretores, atores e cenógrafos são também eventualmente parte do público. Devemos então é nos perguntar como é esse público e procurar saber como é a vida contemporânea? Nos dias de hoje vivemos sob o impacto de constantes transformações, a cada momento surgem novos parâmetros. Ao mesmo tempo em que há uma deteriorização do tradicional surge à cada minuto novas tendências, em todas as áreas. A inter-disciplinaridade e a multi-disciplinaridade, uma característica da contemporaneidade, abrem a cada dia novos caminhos, propondo inesperadas e interessantes alternativas.
Se teatro é o que se vê, o que se mostra, constatamos aí a importância da imagem, e nos perguntamos: como é a imagem hoje?

A imagem na mídia:
Na TV o que mais se vê é o animismo de produtos de consumo e a coisificação do humano. A publicidade diariamente apresenta um animismo das mercadorias. O objeto é elevado à altas categorias ao mesmo tempo em que se cria o mito do corpo humano – nunca antes tão valorizado, ainda que destituído de espírito. A publicidade mostra o corpo humano (seja homem ou mulher) como objeto de mercado e o objeto de consumo, industrializado e descartável, esse tem vida e é apresentado com alma. A força da imagem é tal que quem tem a sua imagem na mídia, existe, quem não tem imagem na mídia é sombra, é fantasma. A imagem não reflete a coisa em si. Sabemos que a sombra de um objeto não é o objeto, assim também a imagem de um objeto ou de uma pessoa, não necessariamente os representam, não os retratam fielmente. A própria fotografia, tão recente, já perdeu para foto digital e para a imagem virtual

Cíclico retorno:
Pode parecer, que o teatro de animação, que fala através de imagens, esteja em meio à uma confusão. Mas não é confusão, é complexidade. No teatro visual de animação ou no teatro contemporâneo em geral, as coisas não soam muito lógicas, como os nossos sonhos, como os símbolos arquetípicos, como nos rituais – o que prepondera é o intuitivo, o não racional. E é essa complexidade que se nos coloca ao criarmos e ao assistirmos a um espetáculo visual de animação ou a um teatro de bonecos não tradicional, pois é como se nos remetêssemos a algum estágio anterior. Para fazer teatro – de ator, de bonecos, de animação – é preciso refletir sobre a nossa história. A história com suas mutações, continuidade, soma, não-rupturas. A história é cíclica, sabemos. Caminhamos por idas e vindas, por avanços e retornos. Talvez estejamos hoje num momento de retorno ao mítico, à linguagem dos símbolos, à essência dos rituais.
Um mito pode ser transmitido através da fala e da imagem, mas lembrar que a imagem vem em primeiro lugar. Assim o objeto, ou o símbolo, que representa um mito, vem em primeiro lugar, e pode permanecer apenas como tal, ou ser acrescentado por palavras. E com elas, outras expressões podem lhe ser acrescentadas: a forma como essas palavras são ditas, o momento e o espaço em que são ditas; a luz, o som, movimentos gestuais que as acompanham. Isso é teatro. Num ritual nada é óbvio, claro, lógico, nele, as idéias se comunicam noutro plano. E quando transcendem o óbvio e o quotidiano, as palavras não são necessárias ou, se colocadas, não precisam ser explícitas, deixando espaço às livres interpretações: no individual e no coletivo.
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* Disponível originalmente em: Cooperativa Paulista de Teatro

domingo, 17 de agosto de 2014

Objetivos do ator
Em teatro existe um assunto que para mim é fundamental ser discutido desde as primeiras instruções que damos aos iniciantes, um assunto de certa forma até polemico para algumas pessoas e mal compreendido por outras, principalmente o aluno iniciante. Eu particularmente trato com muita firmeza este assunto não permitindo que o aluno misture a verdadeira missão do ator que é: fazer com que a vida e as emoções da personagem apareçam para o público, e assim não se sobressaia à natural necessidade de aparecer que têm os alunos iniciantes (e também alguns veteranos que não tiverem uma boa formação). Resumindo, devemos combater o “estrelismo”. O ator/atriz só brilha de verdade quando faz, com competência, com que a personagem ganhe destaque. Por fim, convêm lembrar que “quem faz a fama do bom ator/atriz é a plateia, Ela é quem de verdade escolhe, por mérito, aquele que vai brilhar”. Eu sempre digo em minhas primeiras aulas: - Aqui eu não tenho espaço para estrela e sim para ator e atriz, a “boa fama” nada mais é do que o reconhecimento do bom trabalho.
Para amparar minha tese oferecerei em seguida um texto extraído do livro “Ator e método” de autoria de Eugenio Kusnet1, mais especificamente o capitulo “Objetivos do Ator” onde o autor expõe sua opinião sobre esta questão de suma importância para a boa formação do ator/atriz.

O objetivo do teatro é a revelação da vida do espírito humano, e o objetivo do ator é convencer o espectador da realidade da vida.O fator mais importante na nossa arte é o fator: “AÇÃO”.É interessante notar que a palavra AÇÃO e o verbo “AGIR” fazem parte da terminologia teatral desde os tempos mais remotos. A palavra “DRAMA” em grego significa ação. A palavra “Ópera” usada em todas as línguas com o significado de “DRAMA MÚSICADO” vem do verbo operar, ou seja, agir. A palavra “ATOR” que nos dicionários consta como significado simplesmente “agente do ato”, “o que age”, é usado em quase todas as línguas como sendo “homem que representa teatro, cinema e etc.”. Enquanto aos outros artistas se dá uma definição mais completa (Escultor: o que esculpe; Pintor: o que pinta; Violonista: o que toca violino, etc.) ao artista de teatro ninguém chama de “teatralista” ou coisa que o valha, mas sim de ator; a uma parte da peça teatral não chamam de “capítulo” e sim ato.Em cena, nós, atores, agimos em nome de outra pessoa, “agimos como se fossemos outra pessoa”. Isso não quer dizer que a pessoa do ator deva desaparecer deixando o seu lugar ao personagem. Nada disso. Isso significa apenas que “o ator aceita a situação e todos os problemas como se fossem dele próprio e então para solucioná-los, age como tal”. É evidente que o problema do ator é executar com brilho (como compete ao bom ator que é) o seu trabalho, transmitir corretamente a ideia do autor, manter permanentemente o interesse e a atenção do espectador, etc. tudo isso permanece nele, mas “em estado subconsciente”, porque, durante a ação devem prevalecer esmagadoramente os problemas do personagem.Quando o ator não consegue agir no sentido dos objetivos do personagem, ficam apenas os objetivos do ator: brilhar, ser admirado, ser “o tal”, etc. Mas, durante o espetáculo, ao ator em si não pode interessar o espectador. Ele vem ao teatro para ver a vida do personagem na interpretação do ator. É fácil confundir suas próprias emoções com as do personagem. O sentimentalismo é próprio do ator. É preciso que haja muita vigilância para que o ator não seja sua vítima. É tão tentador fazer uma cena que provoque lágrimas na plateia! Ao fazer essa cena o ator admira a si próprio, e fica comovido com sua interpretação, a ponto de chorar lágrimas de verdade. Mas o que as lágrimas têm a ver com os problemas do personagem? NADA! O ator sai completamente da ação do personagem, mesmo sem percebê-lo. Mas o espectador percebe! Ele percebe que naquele momento presencia um melodrama barato e vem de um profundo drama humano em que as lágrimas talvez nem devessem ter lugar.Assim chegamos à conclusão de que os problemas e os objetivos do ator não podem interessar ao espectador, porque eles não têm nada a ver com as circunstâncias que se passa a ação da peça. Certo. Mas não se deve entender isso ao pé da letra: “o ator nunca deve pôr seus problemas pessoais dentro da ação cênica”.De maneira geral, o teatro atual escolheu a “coexistência em cena do ator/cidadão com o personagem”. O que varia é a “dosagem” dessa coexistência: em muitos casos de ostensivamente física, exterior, e em muitos outros, são quase puramente emocional, espiritual.


Du Lourenso

1Eugênio Kusnet foi um ator, diretor e professor de teatro russo radicado no Brasil.  Nasceu em KhersonUcrânia em 29/12/1898 e faleceu em 1975 na cidade de São Paulo-Brasil. Trabalhou durante 07 anos com teatro nos países bálticos (LetôniaLituânia e Estônia), sofrendo forte influência da escola de Stanislavski. Chegou no Brasil em1926 e só na década de 1930 começou a se interessar pelo teatro brasileiro, mas só fez sua estreia em 1951, atuando e trabalhando nos bastidores da peça Paiol Velho, de Abílio Pereira de Almeida.
A partir daí participou de todo o processo de evolução do teatro brasileiro, e se tornou o mais destacado ator de formação Stanislavskiana e professor de uma grande geração de atores que se formou nas décadas de 60 e de70.

Teve participação ativa também no Teatro Oficina e no Teatro de Arena, e escreveu dois livros sobre a iniciação na arte dramática e ao método da ação inconsciente. Nos últimos anos de sua vida dedicou-se a lecionar teatro na Escola de Arte Dramática da USP e na Fundação das Artes de São Caetano do Sul, além de ser preparador de elenco de grandes espetáculos como Jesus Cristo Superstar.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Artes Cênicas

As artes cénicas (português europeu) ou artes cênicas (português brasileiro) chamadas ainda de artes performativas são todas as formas de arte que se desenvolvem num palco ou local de representação para um público. Muitas vezes estas apresentações das artes cênicas podem ocorrer em praças e ruas. Assim podemos dizer também que este palco pode ser improvisado. Ou seja, o palco é qualquer local onde ocorre uma apresentação cênica. Podemos destacar as seguintes classes: Teatro, Ópera, Dança e Circo.
Buscando significados para a classificação do teatro como arte cênica, vamos entender primeiro o que é “cênica”:
cê·ni·ca . Adjetivo relativo ao teatro ou à cena.
Agora entender o que significa “cena”.
ce·na |ê| (latim scaena)
“Ação ou fato que prende a atenção, que faz despertar qualquer sentimento”.
In Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Se continuarmos nossa investigação veremos que em dramaturgia “cena” é a subdivisão de um ato, se levarmos em consideração que a expressão “entrar em cena” significa também “pôr-se em evidência” podemos interpretar cena com evidência.
Então, podemos concluir que teatro é uma arte dividida em cenas, e assim prende a atenção e faz despertar sentimentos. Ele é performático e dá-se em espaços variados que chamamos de palco, desde que “o palco” seja aceito em suas mais variadas formas e possibilidades. Que usa o corpo e a voz como forma de manifestação de ideias e expressão de sentimentos ou vice-versa. Que teatro, como arte, nos leva a olhar com atenção, nos faz perceber, contemplar. Theaomai(teatro) não significa ver no sentido comum, mas sim ter uma experiência intensa, envolvente, meditativa, inquiridora, a fim de descobrir o significado mais profundo; uma cuidadosa e deliberada visão que interpreta seu objeto. O teatro põe em evidência o humano, no seu melhor e mais sublime e também em todas suas mazelas.

Du Lourenso 

domingo, 3 de agosto de 2014

Teatro, uma arte um espaço.

Quero falar hoje sobre teatro, mas não tenho a pretensão de contar aqui a história do teatro, pois existem ótimos autores que produziram livros com este conteúdo de forma bem completa e totalmente confiável. Quero falar sobre alguns detalhes que definem essa arte e acredito ser fundamental que os conheçamos para termos uma formação de qualidade e consistência, e dessa forma não nos tornemos artistas medíocres e incultos em relação à arte que vivenciamos. Assim conhecer as origens dessa arte e o significado de seus termos técnicos e suas definições é questão obrigatória.
Para começar escolhi a palavra “TEATRO”. Alias, seria improvável começar com alguma outra, pois creio ser fundamental a compreensão da palavra que ao mesmo tempo dá nome a essa arte e ao espaço onde ela acontece. Outras artes separam com facilidade o nome que as identificam de sua área de criação e desenvolvimento. Por exemplo: Dança/Teatro, Artes Plásticas/Ateliê/Exposição, Música/Estúdio/Teatro e assim poderia continuar a nomina-las sem que houvesse semelhança como é o caso do teatro que acontece no teatro. Sempre quis saber por que isso aconteceu e como foi que ficou tão igual assim. Foi só recorrendo a Etimologia, que é a ciência que estuda a origem das palavras, que pude encontrar a respostas. Vejam:
      Segundo a Enciclopédia Britânica, a palavra teatro deriva do grego theaomai (θεάομαι)  que significa olhar com atenção, perceber, contemplar (1990, vol. 28:515). Theaomai não   significa ver no sentido comum, mas sim ter uma experiência intensa, envolvente,       meditativa, inquiridora, a fim de descobrir o significado mais profundo; uma cuidadosa e     deliberada visão que interpreta seu objeto (Theological Dictionary of the New Testament     vol.5:pg.315,706)
    O vocábulo grego Théatron (θέατρον) estabelece o lugar físico do espectador, "lugar onde se vai para ver" e onde, simultaneamente, acontece o drama como seu complemento visto, real e imaginário. Assim, o representado no palco é imaginado de outras formas pela plateia. Toda reflexão que tenha o drama como objeto precisa se apoiar numa tríade teatral: quem vê, o que se vê, e o imaginado. “O teatro é um fenômeno que existe nos espaços do presente e do imaginário, nos tempos individuais e coletivos que se formam neste espaço” ("O Espetáculo do Melodrama").

O teatro, mais do que ser um local público onde se vê, é o lugar condensado da vivência das ambiguidades e paradoxos, onde as coisas são tomadas em mais de uma forma ou sentido. Robson Camargo assim o define (2005:1):

Podemos notar que em sua origem grega o teatro está muito bem separado, como arte e como espaço físico. Constatamos então, que foi no curso da história, principalmente na história da língua portuguesa, que essa mistura se deu. Na Espanha, por exemplo, não existe faculdade de teatro e sim faculdade de artes dramáticas, em Inglês o espaço físico se chama theater e para a arte diz-se dramatics.
Sei que estas explicações e detalhamentos não irão mudar em nada nas pessoas comuns sua expressão falada ou escrita, por ser uma forma de entendimento sobre o assunto já consagrado até nos meios acadêmicos. Mas espero que de alguma forma isso possa fazer diferença para as pessoas que vivenciam o teatro, espero que ao conhecer essas definições possam enriquecer-se culturalmente e sabendo diferenciar “uma coisa da outra” também possam alcançar melhor qualidade em seu trabalho, haja vista que o ator vive de interpretar, posso afirmar por experiência que tem a melhor interpretação aquele que detêm maior conhecimento sobre o tema a ser interpretado.
Então peço a diretores, atores/atrizes e etc., profissionais ou amadores, que busquem “o prazer do saber sobre sua arte”, que propaguem estes saberes em suas conversas diárias, no exercício de sua arte como profissão e na busca da excelência em todos os palcos.
Reafirmo aqui a necessidade de estudar teatro, seja na faculdade, em cursos livres, oficinas ou de forma teórica na leitura diária de bons livros e bons artigos.
Diga sempre, “eu estudo teatro, faço aulas de teatro (theaomai)” e colabore com o processo já em andamento de “dignificação” de nossa arte.

Du Lourenso